23.8.06

 

Sara Carone


Aos 12 anos, uma menina resolveu esculpir no barro o rosto da colega de classe. Pôs a mão na massa e, ao chegar aos olhos, ficou cheia de dúvidas sobre o que deveria fazer. Folheando um livro de esculturas, leu que os olhos não precisam ser feitos necessariamente com pupilas. Seguiu a dica, mas depois sentiu-se como se tivesse roubado a solução e, portanto, não fosse a verdadeira autora de peça. E, já que não passava de uma ladra, era melhor desistir. Não fosse por esse sentimento ingênuo – afinal, técnicas se aprendem em qualquer profissão – e teríamos tido a oportunidade de privar do talento da grande ceramista Sara Carone bem antes. Mas quem é que está com pressa? Sara, seguramente, não. Ansiedade é uma palavra que parece nem existir em seu dicionário.

Ela retomou a carreira interrompida na pré-adolescência só na maturidade, nos anos 80, quando já tinha passado dos 30. Se precisou esperar um tempão para sentir-se boa o suficiente para voltar a esculpir, o reconhecimento a seu trabalho não tardou. Sara Carone já expôs três vezes no “país da cerâmica”, o Japão – em 1990 e 1993, na Murata Gallery, de Tóquio, uma galeria exclusiva de cerâmica e vidro, e em 1993 na Tsubaky Gallery, em Chiba. Tem obras de sua autoria no acervo do Museu Nacional de Arte Moderna de Tóquio, incluídas por Mitsuhiko Hasebe, o crítico de cerâmica mais respeitado daquele país hoje. Em 1991, mereceu a matéria de capa da revista norte-americana Ceramics, no mesmo ano, fez uma exposição individual na Jane Corkin Gallery, em Toronto, Canadá: em 1994 seu trabalho mereceu uma alentada mostra no Museu Nacional do Azulejo, em Lisboa, Portugal; e em 1995 foi a vez de o Museu de Arte de São Paulo, o MASP, abrir-lhe as portas.

Tudo isso foi conquistado sem alardes, silenciosamente, com um trabalho que remete palavras como delicadeza, suavidade e harmonia. Numa época em que a maioria dos ceramistas abusa do esmalte e das cores, “disfarçando” o barro com uma grossa camada vítrea. Sara desnuda a matéria com que trabalha e sobrepõe a ela um jogo gráfico sutil, delicado por vezes irônico e sempre de grande beleza.

Tirar os olhos da peça e volta-los para a artista permite constatar um desses raros casos de coerência entre o que se é e o que se faz. Sara é despretensiosa, passa ao largo da autopromoção, não se vangloria de nada. Nela, nada é chamativo ou gritante – evidente, mesmo, só o prazer de demonstrar quando está montando, esmaltando, queimando. Tudo muito leve, como se ir tirando do barro essas formas e grafismos fosse algo absolutamente “natural”, que prescinde de esforço ou determinação. Ou como se a expressão artística fosse uma diversão calma e profunda.

Revista: ÍCARO
Texto de Adélia Borges

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Comments:
...tão bela, esta postagem...que me fez correr lágrimas ...
obrigada , Teresa, pela sua tão delicada escolha.



***maat
 
Encontrei esta página,que talvez lhe interesse dar uma vista de olhos:

http://www.saracarone.com/index.html


***maat
 
Linda descoberta *****
Um beijinho
Joao
 
Legal encontrar um blog sobre cerâmica. Sou ceramista do Rio de Janeiro. Um abraço Fábia Schnoor.
Se quiser conhecer meu trabalho
www.schnoor.blogspot.com
 
Muito bom o teu trabalho, Fábia.
Achei as peças muito criativas.
Parabéns.Um abraço
Teresa
 
gostei muito de conhecer as obras destes ceramistas. Bom trabalho , Beijinhos Manuela
 
Obrigada Manuela pela visita!Talvez um dia destes dedique um post às tuas obras!
Beijinhos da
teresa
 
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