6.9.06

 

Mestre Vitalino – O Mundo é de Todos

O artesão mais famoso de Caruaru foi Vitalino Pereira dos Santos - Mestre Vitalino (1909-1963), nascido no distrito de Ribeira dos Campos, nas cercanias da cidade de Caruaru.
Casado com Joana Maria da Conceição, segundo contam, era tímido, cordial, amigo de todos, fala amável, franzino, pele áspera queimada de sol, cabelo escovinha, bigode raso, católico tradicional, devoto de Padre Cícero e festeiro. Como muitos, era analfabeto pois, praticamente, não existiam escolas na região.

O pai trabalhava na roça e a mãe além de o ajudar era louçeira. Fazia panelas, potes, jarros, alguidares, pratos, mealheiros etc. Vitalino desde criança brincava modelando com as sobras de barro de sua mãe. Voltado para o lúdico, fazia bichos: cavalos, bodes, vacas .
Naquela época, as crianças, principalmente do interior, não tinham acesso a brinquedos produzidos industrialmente, como os hoje existentes, feitos de plástico, baratos, bonitos e abundantes nas lojas. Para se entreter tinham que fazer eles próprios os seus objetos.

Aproveitando que o pai e o irmão vendiam na feira peças que sua mãe fazia, Vitalino passou a mandar para lá os bichinhos e outras coisas que modelava. Vendia barato e ganhava uns vinténs. Tinha uns 7 anos na ocasião.
Com o passar do tempo, já com mais idade, passou a abordar outros temas em seus trabalhos. Assim começou o registo em barro, do homem do agreste nordestino, através de cenas do quotidiano rural: sua gente, usos e costumes.


Passados anos, Mestre Vitalino, em 1947, já com 38 anos, continuava a viver da roça e de modelar bonecos.
Estimulado pelo artista plástico e colecionador pernambucano Augusto Rodrigues, que admirava a excelência de seu trabalho, foi morar em Alto do Moura, localidade próxima de Caruaru, distante somente 8 km, com sua mulher e filhos.

Em Alto do Moura, Vitalino ficou perto da famosa Feira de Caruaru, que tinha centenas de barracas onde se comercializava de tudo.
Na sua banca oferecia bonecos feitos com barro. Logo seus trabalhos ganharam fama tornando-o conhecido e admirado.
Com singular destreza, esculpia cenas do quotidiano sertanejo em que vivia. Seus trabalhos eram diferentes dos levados pelos outros artesãos que abordavam sempre os mesmos temas: animais, maracatus, bumbas, cinzeiros, potes, jarros, pratos, moringas, etc.

O sucesso de Mestre Vitalino como “bonequeiro” repercutiu junto aos seus companheiros de Alto do Moura que passaram a admirar o seu talento. Isto fez com que muitos passassem a esculpir bonecos.
Dentre esses, os principais eram: Zé Caboclo, Manuel Eudócio, Elias Francisco dos Santos, Zé Rodrigues, Manoel Galdino, Luiz Antonio da Silva, hoje conhecidos como seus “discípulos”.

Importante salientar que estes seguidores contaram sempre com ajuda de Vitalino, que não tinha medo da concorrência e via de bom grado a participação dos amigos, nunca se negando a transmitir seus conhecimentos e suas técnicas: o trato do barro (escolher o barro, socar, peneirar, armazenar); os cuidados com a secagem das peças (secagem natural, à sombra, para evitar rachaduras durante a queima); e a correcta cozedura no forno a lenha (aquecimento, manutenção e elevação da temperatura e o arrefecimento).

A amistosa relação mestre/discípulos criou um clima onde todos se ajudavam assimilando entre si técnicas e temas. Muitas criações eram copiadas de um e produzidas por outro.Não havia o dono da cena, o detentor do direito daquela imagem. Copiar obra de outro companheiro era prática aceita com naturalidade por todos.

Eis um exemplo: a modelagem da figura “Noiva na garupa do cavalo do Noivo” foi criada por Vitalino, no entanto, Manuel Eudócio, Luiz Antonio e outros copiavam sem haver ressentimentos. Consideravam o plágio como uma lisonja. Mestre Vitalino dizia: “o mundo é para todos e todos precisam viver”.

Os “bonequeiros” de Alto do Moura retratavam, dentre muitas, as seguintes cenas do quotidiano sertanejo:Terno de zabumba, Família de retirantes, Enterro na rede, Festa de casamento, O Marchante cortando carne, Barbeiro de feira, Aguadeiro carregando água, Pescador com vara e anzol, Cavador de açude, Mulher com lata de água na cabeça, Mulher apanhando algodão, Casa de farinha, Carro de boi, Delegado, Vacinação, Dentista, Fotógrafo, Violeiros, Engraxate, Delegado, Banda (Procissão de Zabumba), O Palhaço, Noivos (casamento a cavalo), Vaqueiro derrubando o boi, Cavalo, Boi, Caçador, Agricultor voltando da roça, Vaquejada, Doutor auscultando o doente, Curral de boi, Centauro, Homem com cachorro, Homens com arado, Homens na lavoura, Ordenha, Médico operando o doente, Comedores de Banana, Time de Futebol, Banda de Pífanos, Crucifixo, Lampião sereia, Lampião e Maria Bonita, São Francisco cangaceiro, Conselho dos bichos e Carro de noivos, Menino sentado no penico, Velho pensando, Velho acocorado soprando fogo na roça, Escola radiofônica, Roberto Carlos cantando, Cavalo-marinho, Bumba-meu-boi, Os Três no Forró, Terno de Pífanos, Cangaceiros, Lampião a Cavalo, Procissões, Família Retirante, Bumba-Meu-Boi.

Com o passar do tempo, contando com a expansão dos meios de comunicação, os “bonequeiros” passaram a ter conhecimento, rapidamente, dos novos acontecimentos nacionais e internacionais, e os registravam através de seus trabalhos.
Um dos exemplos mais significativos ocorreu quando o homem foi a Lua. Logo a seguir já havia boneco retratando um Astronauta. O Oficial Japonês também virou boneco criado por Vitalino, certamente inspirado em imagem que viu da 2ª Guerra Mundial. Funcionário da companhia de eletricidade trepado no poste fazendo reparo (chegada da eletricidade na cidade); Moça namorando de minissaia (quando a moda da saia curta chegou), Vôo de helicóptero (novidade nos céus), Time do Brasil campeão de futebol (quando levantou o campeonato mundial) e Roberto Carlos cantando (o rei nas paradas de sucesso).
Se fosse hoje em dia, certamente haveria gente modelando a figura de um Homem no computador ligado à internet, ou Falando no telémóvel.

A integração entre o pessoal de Alto do Moura era tanta que haviam “bonequeiros” que dividiam um mesmo espaço, trabalhando no mesmo quarto da casa. Na hora de colocar a marca de autoria na peça, não era usual assinar e sim marcar com carimbo, de tão amigos que eram, usavam, se necessário, o carimbo do colega, pelas mais diversas razões: não possuíam, tinham perdido o seu etc. Mas, entre eles, cada um sabia o que tinha feito, o que era seu, que tinha seu traço, seu estilo.

Outra prática que ocorria era vender trabalhos sem gravar o nome do autor. Tanto que é comum encontrar, hoje em dia, entre as peças expostas em museus e constantes em livros e catálogos, a anotação “autoria desconhecida”.

Os “bonequeiros” se juntavam quando recebiam uma encomenda de vulto. Certa ocasião um deles tinha de produzir 2000 figuras retratando Agentes de Viagens para um evento em Recife. A solução foi formar um mutirão, com muitos trabalhando simultaneamente na encomenda, para que a entrega fosse feita no prazo combinado. Quando receberam repartiram o valor em função da produção de cada um.

Havia um grande clima de camaradagem em Alto do Moura, que se expressava de diversas maneiras: se havia espaço no forno queimavam também as peças do companheiro; quando estavam participando da feira, expunham e vendiam também os trabalhos dos que não podiam estar presentes ; se o freguês quisesse uma peça não disponível, levavam o cliente para ser atendido por outro. Estas e muitas outras formas de convivência humana, harmoniosa e prestativa, demonstra o bom relacionamento que existia entre eles.

Apoiado na fama de seus artistas Alto do Moura passou então a atrair cada vez mais visitantes, fregueses que iam comprar peças para si próprios ou para revender em outras cidades.
Encomendas não paravam de chegar. Para atender os compromissos, os artesãos tinham que trabalhar muito e quase sempre contavam com a ajuda de toda a família na produção.

Muito trabalho e pouco dinheiro. As peças eram vendidas muito baratas. Os compradores não se dispunham remunerar com um preço justo aos “bonequeiros”. A vida era dura, muito dura. Nenhum acumulou riqueza nem viveu folgadamente. Vitalino e todos os demais morreram pobres.
Rendia muito pouco a penosa jornada de trabalho que começava ao amanhecer e, muitas vezes, ia até tarde da noite. Quando do trabalho noturno, a casa era iluminada à luz de candeeiros a querosene, pois não havia luz elétrica.

O modo actual de modelar os bonecos é quase idêntico ao do passado. Fazem tudo manualmente usando ferramentas improvisadas.
As peças continuam a ser queimadas em rústicos fornos circulares, sem abóbada, com lenha do sertão.

Quanto à decoração, quase nada é esmaltado sendo o acabamento em terracota. Há, no entanto, os que decoram os trabalhos pintando com tintas comerciais, normalmente com cores fortes e brilhantes.
Há registros que alguns ceramistas esmaltavam suas peças com zarcão. Hoje ninguém mais usa esta técnica.

Vitalino faleceu em 20 de janeiro de 1963, acometido de varíola. Teve 18 filhos e, destes, somente 5 viveram até a idade adulta.

A família Vitalino está representada, hoje em dia, por filhos e netos. Através do artesanato "Mãos de Vitalino" , peças produzidas pelos parentes, e alguns de seus seguidores, podem ser adquiridas através de seu neto Vitalino Pereira dos Santos Neto

Existe um acervo significativo de obras em museus do Rio de Janeiro, Recife, Caruaru e Alto do Moura.
No Rio de Janeiro-RJ, encontram-se peças de Mestre Vitalino e de seus seguidores no Museu de Folclore Edison Carneiro , Rua do Catete 179-Catete, no Museu da Chácara do Céu , Rua Murtinho Nobre 93-Santa Teresa, no Museu Nacional de Belas Artes, Av Rio Branco 199-Centro e na Casa do Pontal-Museu de Arte Popular Brasileira, Estrada do Pontal 3295-Recreio dos Bandeirantes.
No Recife ,no Museu do Homem do Nordeste, na Av 17 de Agosto 2187-Casa Forte.
Em Caruaru, no Museu do Barro, também conhecido como Espaço Zé Caboclo, há em exposição uma mostra bastante significativa da obra dos ceramistas locais, Praça Cel José de Vasconcellos 100.

No Alto do Moura funciona a Casa-Museu de Mestre Vitalino, administrado pelo seu filho Severino, instalado na antiga casa, construída em 1959, onde o mais famoso “bonequeiro” viveu, trabalhou e morreu. No local estão expostos objetos de uso pessoal do artista, suas ferramentas de trabalho, móveis e utensílios, e fotos retratando sua trajetória.
No quintal, permanece o rústico forno a lenha circular, em que fazia suas queimas, foto acima.

Digno de registro é o fato de Alto do Moura ser considerado pela UNESCO como o maior Centro de Arte Figurativa das Américas. Atualmente, muitas dezenas de pessoas trabalham seguindo a “escola” do Mestre Vitalino.


Texto: Renato Wandeck (adapt.)
Para saber mais ver: Cerâmica no Rio

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Comments:
Tereza,

Muito bonito o seu blog!! É muito bacana a sua divulgação da Arte em Cerâmica. Estive aqui uma vez, indicada pela Maat e agora através da sua visita a Casinha de Brinquedo. É impressionante a força que essa arte exerce na gente. Mestre Vitalício é um exemplo de como o talento e o exercício de um ofício pode revelar um verdadeiro artista. Muito bonito o texto e também o desprendimento do mestre em ensinar aos discípulos. Parabéns pelo bonito blog. Beijo, Carol
 
Olá Carol! Obrigada pela bonita mensagem!Bjs
 
vc são uns lerdos qp eu ñ qro isso eu só quero sa imagens dos bois feitos de barro do mestre vitalino
 
eu quero o nome do mestre vitalino sua burra...
 
Meu eu adorei,Eu procurei alguma coisa sobre mestre vitalino e nao achava e agora achei tudo o que presisava

Ameii♥
 
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